Idílio, tragédia e escravidão – Resenha do romance “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis

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Idílio (1929), de Tarsila do Amaral

O romance Úrsula (1859), assinado “por uma Maranhense”, é o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Maria Firmina dos Reis (1825-1917), a “Maranhense”, foi uma mulher negra que participava ativamente da vida cultural e intelectual de sua cidade, publicando crônicas, artigos e textos de ficção em jornais, e ainda recolhendo canções e ditos folclóricos. Embora tenha alcançado certa fama em São Luís do Maranhão em vida, Maria Firmina e sua obra foram esquecidas já em começos do século XX até serem redescobertas, por mero acaso, pelo historiador Horácio de Almeida (1896-1983), na década de 1960.

Composto por vinte e poucos capítulos, o livro Úrsula trata da trágica história de amor de Úrsula, moça casta e muito pobre, que vive com D. Luiza, sua mãe “paralítica”, numa casinha afastada da cidade e de outras propriedades; e Tancredo, rapaz rico, porém valoroso, que faz o tipo do cavaleiro andante. O grande vilão do romance é o Comendador P…, o pai de mancebo, homem extremamente cruel, que paira como uma nuvem de maldição sobre tudo e todos.

A mocinha que dá nome ao romance é perfeita imagem da castidade e da pureza, traços acentuados pelo fato de viver em meio à natureza e de maneira simples. Órfã de pai, Úrsula cuida de sua mãe com ajuda dos escravos Túlio e mãe Susana. Vinda de família rica, D. Luiza havia brigado com o irmão, e acabara sendo deserdada por casar-se com um homem de condição inferior. Como se não bastasse, a mísera não foi feliz no casamento, sofrendo com o gênio intempestivo do marido. Este, por fim, morreu em circunstâncias suspeitas, deixando-a viúva, sem condições de se sustentar e com uma filha para criar. Para piorar, D. Luiza é logo acometida por uma doença que termina por privar-lhe dos movimentos do corpo, ficando completamente dependente de Úrsula. Felizmente, a filha é um modelo não só de recato, mas também de abnegação, e, em seu recanto singelo perto da mata, Úrsula cuida da mãe sem reclamar ou maldizer sua sorte. Ela não parece esperar nenhum príncipe encantado, mas, é claro, seria deveras agradável se ela e a mãe fossem resgatadas dessa triste condição por algum nobre cavaleiro – que acaba aparecendo, eventualmente.

Em verdade, somos apresentados em primeiro lugar a esse “nobre cavaleiro”, pois logo o primeiro capítulo coloca em cena Tancredo vagando pelo sertão. O rapaz está fugindo de casa após uma imensa desilusão amorosa – sua noiva, Adelaide, casara-se com outro enquanto o rapaz trabalhava como advogado em uma cidadezinha afastada. Inconsolável com essa traição e completamente desesperançado, Tancredo cavalga dias a fio, sem rumo, até a exaustão de seu cavalo, que acaba por cair morto. Já também sem forças e completamente desiludido de viver, o jovem fica à mercê da sorte até que Túlio, o escravo da família de Úrsula, o encontra e o resgata, levando-o até a casa de suas senhoras. Desse encontro nasce uma forte amizade entre os dois, cuja uma das maiores provas será a compra da carta de alforria de Túlio, depois de Tancredo recuperar-se por completo.

Também jovem, Túlio é retratado com todas as melhores características de um nobre cavaleiro medieval: é justo, corajoso, alto, forte e, claro, temente a Deus. Ele não possui nenhum traço negativo associado ao fato de ser negro ou à sua condição de escravo, o que é bastante incomum para a prosa romântica brasileira de então – basta lembramos das (poucas) personagens negras de José de Alencar, por exemplo. Entre os dois estabelece-se uma relação de amizade e respeito mútuos e, embora Túlio pareça assumir o papel de escudeiro de Tancredo, fica claro que ele não é inferior ao moço branco em nenhum sentido, colocando-se à disposição do rapaz por gratidão e respeito, não por medo ou obrigação.

A outra escrava da casa é a velha mãe Susana, que, como Úrsula, não se queixa jamais de sua condição e se coloca à mercê de Deus. Quando jovem, ela vivia em África numa tribo próspera, com marido e filha, gozando de sua liberdade. Certo dia, porém, foi capturada por caçadores de escravos e trazida ao Brasil. Mãe Susana nunca mais reencontraria sua família. O capítulo em que ela narra, em poucos parágrafos, sua vida em África e os horrores da travessia do Atlântico num navio negreiro é, com certeza, dos mais (senão O mais) interessantes do livro:

Era um desses dias em que a natureza parece entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante, entretanto eu tinha um peso enorme no coração. Sim, eu estava triste, e não sabia a que atribuir a minha tristeza. Era a primeira vez que me afligia tao incompreensível pesar. Minha filha sorria-se para mim, era ela gentilzinha, e em sua inocência semelhava um anjo. Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah! Nunca mais devia eu vê-la…

Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar do perigo eminente, que ali me aguardava. E logo dois homens apareceram e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira – era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se de minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão (…).

Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos marrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes de nossas matas (…). Davam-nos água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água (…).

Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio a dar a morte aos cabeças do motim. (REIS, p.92-94, 1859/1973)

Ao opor, em sua narrativa, a beleza do dia e os grandes espaços abertos e vibrantes da África em que vivia com toda família ao fétido e claustrofóbico porão em que foi trazida ao Brasil, amarrada, mãe Susana torna ainda mais chocante seu relato. O horror da escravidão surge de maneira crua e incômoda ao leitor, e sem figuras de linguagem rebuscadas ou imagens artisticamente grotescas, como nos versos de Castro Alves em “O Navio Negreiro” (1869). De fato, a narrativa de mãe Susana é considerada, hoje, um dos melhores trechos do livro, tanto no que diz respeito aos aspectos literários, quanto na escolha do tema da escravidão, que, como tema literário, teria de aguardar ainda algum tempo até que os poetas-condores começassem a tratar dela.

Cercados apenas de criaturas zelosas e dignas, o amor de Tancredo e Úrsula logo floresce da maneira mais cândida. Recuperado, o rapaz deixa sua noiva com a mãe para resolver alguns assuntos e Túlio vai com ele. Novamente só depois da partida do amado, Úrsula passa suas poucas horas livres numa clareira, suspirando por seu amado e sonhando com a futura felicidade dos dois. Certo dia, porém, ela é surpreendida em seus devaneios por uma perdiz que vem correndo da mata, ferida. Preocupada, a moça pega a avezinha no colo, manchando todo seu vestido (branco, é evidente) de sangue – está anunciada a desgraça. Logo em seguida, surge caçador que ferira a perdiz e, encantado com a beleza de Úrsula, logo declara seu amor. Assustada, ela o repudia e volta correndo para sua casa, deixando para trás a perdiz morta.

É neste ponto que toda a trama se amarra, pois a aparição desse tal caçador irá desencadear eventos funestos que levarão a trama a um fim para lá de dramático. O desfecho trágico do romance parece querer dizer que não existe um final feliz possível numa terra dominada por homens cruéis e egoístas, como o irmão de dona Luísa, ou o Comendador, pai de Tancredo, e regida pelo regime atroz da escravidão. Enquanto houver Comendadores, enquanto houver escravidão, não há esperança de que almas boas e puras como as de Úrsula, Tancredo, Túlio e mãe Susana possam viver sobre a terra. Coloca-se também a questão da justiça divina, do sofrimento como via para a salvação da alma. O pecado e a maldade são, por fim, punidos com o remorso e a morte.

O romance, apesar de alguns problemas de pontuação, escrita e organização dos parágrafos (certamente decorrentes de uma falta de revisão mais atenciosa da edição), não deixa nada a desejar no que diz respeito aos parâmetros da Escola Romântica – aliás, antes peca por exacerbar a linguagem e o melodrama em muitas passagens, e mesmo em certa inverossimilhança na forma de falar das personagens (todas elas, ricas, pobres, brancas ou negras, dominam com primor as normas gramaticais e só se tratam por “vós”). Chamam a atenção, principalmente, dois aspectos típicos do Romantismo: a exaltação da Natureza e sua relação com o Sublime, como forma de se aproximar de Deus; e a idealização das personagens, especialmente Túlio, Tancredo e Úrsula, calcados em ideias medievais de cavalheirismo e donzelice.

Na apresentação ao livro, Maria Firmina, a “Maranhense”, diz ser Úrsula um “mesquinho e humilde livro” e que, com certeza, “passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros”, mas, ainda assim, ela insiste em trazê-lo ao mundo. Diz ser essa publicação uma tentativa, uma experiência e que ela, enquanto autora, age como uma mãe, não vendo, por amor, “os defeitos, os achaques, as deformidades do filho” e, por isso, pede que os leitores não sejam tão críticos. Essa modéstia, real ou falsa, termina com uma leve provocação: que o possível “bom acolhimento” do público para com Úrsula possa fazer com que a imaginação se torne mais brilhante e a instrução mais vasta e liberal, ou seja, que esse romance seja o primeiro passo de uma longa estrada, ao longo da qual a autora há de aprimorar sua arte. Quis o destino que o caminho de Maria Firmina enquanto escritora não fosse tão longo e acabasse apagado dos mapas de nossa história literária. Nos últimos anos, porém, estamos redescobrindo os passos da autora e os detalhes de suas obras e possibilitando que ela, ainda que supostamente “tímida e acanhada, sem dotas da natureza, nem enfeites e louçanias”, caminhe mais uma vez entre nós.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

REIS, Maria Firmina. Úrsula. Typographia do Progresso, 1859. Ed. Fac-Símile de 1973. Apresentação de Horácio de Almeida.

[este post foi reeditado em 28 de maio de 2019]

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